Noite passada eu tive um sonho. Meio pesadelo. Do jeito que eu gosto: repleto de suspense, ação, muita, muita emoção e uma pitada de sexo. “Arrebatador, daria um belo filme, um livro, talvez até uma ópera de tão épico”, pensei nos primeiros instantes daquela manhã. Suado, taquicardíaco e emocionado, constatei que a história que eu acabara de vivenciar era linda e genial e, quando fechava os olhos, a Scarlett Johansson ainda sorria para mim. Empolgado, pensei em anotar alguma... Mas não, preferi ficar ali na cama em busca de mais alguns momentos daquela experiência extraordinária. Porém não conseguia voltar àqueles campos verdejantes e eu tinha que trabalhar. Levantei meio zonzo, cheio de coisa para fazer e preocupado em não perder a emoção da história que eu vivera. Banheiro, espelho, chuveiro e uma xícara de chocolate gelado. Depois metrô, sudoku do jornal e, finalmente, minha mesa de trabalho, duas horas depois de o sonho acabar. Peguei a caneta e o papel e, mesmo com a Sacarlett Johansson no meio, a idéia já não me cortava a respiração, era boa, com os cavalos e tal... Acho que, com uns acréscimos aqui ou ali, tinha grande potencial. “Vou fumar um cigarrinho.” Fui à padaria comprar cigarros e organizar as idéias e, no trajeto de ida, encontrei a Suzi, irmã de um amigo meu, que é praticamente, acreditem, a Scarlett Johansson da zona norte. Nunca havia falado com ela, mas aquilo só podia ser um sinal. Cheguei junto e, conversa vai, conversa vem, perguntei do irmão e acabei lhe contando do sonho e da parte principal, o strip no balangandã. Ela se assustou e ainda perguntou assustada: “Strip no balangandã?” Eu sorri sem graça e tentei continuar a história, falar da parte noturna, que era riquíssima, emoldurada com fogos de artifício, mas ela não agradou e foi saindo de lado. Aquilo me doeu. Era como se a água me escorresse por entre os dedos. Fiquei ali parado na porta da padaria sem a emoção, sem o calor, sem o coração disritmado e sem a Suzi. Nem a mim a onírica idéia empolgava mais. Não conseguia exteriorizar a emoção que o sonho me causara. Mas eu não sou homem de desanimar assim. Com um pouco mais de sexo e a Scarllet Johansson no papel principal, eu tinha a certeza que essa história poderia dar um belo filme. Então, me enchi de coragem e comecei a sonhar novamente.
Desde que o Brasil ganhou o primeiro jogo da Copa de 2002, Caicão, meu marido, nunca mais lavou aquela cueca proclamada por ele, e só por ele, da sorte. Nem por todas as conjunções astrais, todas as forças cósmicas do universo, nem por todos os santos e deuses de todos os credos e fé, a tal cueca fedorenta jamais influenciaria resultado de porra nenhuma. Que dirá a favor.
Mas não teve jeito, depois da vitória do Brasil sobre a Turquia, na cidade de Ulsan, segundo Caicão graças à força da sua cueca da sorte, o sacrifício passou a ser meu, pois o infeliz jurou, a partir daí, assistir todos os jogos da seleção com a mesma cueca e jamais, jamais, lavá-la. De nada adiantou eu argumentar que o Brasil já conquistara quatro Copas sempre sem ajuda de cueca alguma. Ele estava irredutível e convicto.
Seguiram-se mais jogos e, com eles, pingos de mijo, respingos de cerveja, gases intestinais, fumaça de churrasco, a putrefação de tudo isso e o Brasil não perdia. Consequentemente, a cueca transformou-se num talismã milagroso, responsável pelo pentacampeonato e, depois da vitória, ele a guardou cuidadosamente numa gaveta, como um deus fatigado a repousar.
Mas aí veio a Copa América e ela voltou com tudo. Ressuscitada. Ressuscitadíssima. E mais fedida. Jogos e mais jogos e o Brasil não perdia. Contra a Argentina, na final, o filho da mãe chegou a tirar a malcheirosa e rodá-la sobre a cabeça durante a comemoração, num claro atentado à nação portenha, ao pudor e a mim.
Dois anos depois, no dia da estréia do Brasil na Copa da Alemanha, Caicão entrou todo-todo na sala e, pelo cheiro exalado, não havia dúvida que trazia por baixo do calção azul, a danada da cueca da sorte. O cheiro era tanto que, ainda no primeiro tempo, desisti de assistir aquele e os demais jogos da Copa. Era muito pra mim. Até que chegou o dia em que o Brasil perdeu para a França e foi desclassificado da competição. Ao invés de ficar alegre, eu fiquei puta da vida, tomei coragem, prendi a respiração, invadi a sala e joguei a cueca pela varanda do sexto andar. Com o Caicão dentro.
Eles são aqueles que não podem ver uma coxinha de boteco, aquelas que apreciam um quibe de rodoviária, pessoas que piram numa maionese mal dormida. A comida, para estes exóticos comensais, não pode ser a saudável comidinha da mamãe: tem que estar passada, azeda. Mas não muito. O alimento não pode estar estragado, pois o que se busca é o prazer e não uma gastroenterite. É uma sutileza, uma tênue diferença que quem aprecia sabe bem diferenciar. Eles são os salmonelófagos. E, como ninguém consegue pronunciar sal-mo-ne-ló-fa-gos, eles resolveram abreviar e tratam-se por Salmongôs. Neologismo que, além de identificar e diferenciar estes homens e mulheres dos seres humanos vulgares, virou senha e cumprimento.
– Salmongô!
– Salmongô!
Os mais puristas e exigentes apreciam o momento exato em que a comida começa a se deteriorar. Os primeiros efeitos da ação das salmonelas. Um luxo que só os verdadeiros espertos sabem desfrutar. Por exemplo, há quem calcule em uma hora e quinze minutos, à temperatura ambiente de vinte e quatro graus, o momento certo da, digamos, maturação final de um salpicão de frango. Desde que não seja em casamentos ou formaturas. Aí, o momento do salmonelófago, o Salmongô, atacar a bandeja com prazer é de, aproximadamente, quarenta e três minutos. Existe, inclusive, uma tabela de conversão para saber em quanto tempo a sua comida preferida vai começar a azedar em determinados ambientes. Quanto mais preciso, mais prazeroso.
– Salmongô!
– Salmongô!
– Experimente esta maravilha
– O que é, maionese?
– De sardinha. Respire...
– Hummmm. Que aroma... Posso provar?
– Claro.
– Hum... Harmonioso. Harmoniosíssimo.
– O que você acha?
– É agradável, porém bastante complexo. Mescla notas marinhas com algo de tanino. Mesmo com leves toques metálicos, talvez devido à azeitona, é suave na boca e bastante apurado. Acidez redonda... Hum... Sinto ainda um ligeiro toque de musk que o deixa extremamente elegante.
– Assino em baixo.
Há uma famosa empada de frango com palmito, num barzinho do centro, que tem hora para passar. Todo dia às cinco, cinco e meia, pouco mais ou menos, as empadas começam a azedar. Os Salmongôs, geralmente indivíduos sofisticados e cordiais, disputam a iguaria quase a tapa. O português recusa-se a aumentar a produção e os que conseguem comemoram.
– Salmongô!
– Salmongô!
– A empada acabou. Agora só há pizzas.
– De quando é?
– A calabresa é de hoje de manhã.
– Posso cheirar?
– Ai Jesus, cheire.
– Quero uma fatia.
– Aqui está.
– Salmongô!
Salmongôs são exigentes glutões. Comensais que buscam incessantemente, pelas gôndolas e prateleiras dos mercadinhos de bairro, salsichas com a data de validade vencendo. Ou percorrem bibocas de periferia atrás de um ovo cozido deus sabe quando.
Donas-de-casa Salmongôs vibram de prazer quando encontram num remoto mercadinho de bairro a sua manteiga em lata preferida recentemente expirada:
– Salmongô, Salmongô!
– Eu ser coleano, senhola, não entende japonês.
Há cozinhas inteiras pilotadas por Salmongôs e a gente nem sabe disso. Preparam-nos as mais requintadas iguarias porém, horas mais tarde, são eles a se deliciar quando as famosas salmonelas começam a proliferar sobre os seus cremes, caldos, carnes, peixes e saladas.
Os doces são muito apreciados pela consistência que adquirem, mas há que ter muito cuidado. O momento ideal é curto e sutil. Sua perecibilidade é de difícil percepção. Um grupo de Salmongôs é capaz de esperar horas, numa mesa à volta de um tiramissú.
– Acho que já está, sinta o aroma que começa a lhe desprender...
– Acho que podemos esperar mais um bocadinho.
– Não sei se foi boa idéia parti-lo. Gastão, apague este charuto.
– Considerando os 29 graus aqui da sala, está para breve.
– Calma, senhores, não vamos nos precipitar.
– Sim, quem tem pressa come fresco.
– Argh!
– Eca!
– Que horror.
– Deixemos a natureza fazer a sua parte.
– Passe-me a garrafa de Porto.
Lembre-se, um Salmongô não gosta de comida podre. Nem sequer estragada. A primeira mudança no aroma da maionese é capaz de provocar nestes seres um grande prazer e até certa volúpia. Gostam de apreciar o efeito da ação das salmonelas em doses corretas. E atenção, a salmonelofagia vicia, causa dependência e pode ser um passo para substâncias mais pesadas como mofos e bolores.
– Agora sim, senhores, acho chegou o momento.
– Sim é agora.
– Vocês são muito ansiosos, eu deixava um pouco mais.
– Posso ter a honra de servi-los?
– Por favor.
– Marquinhos...
– Salmongô.
– Luis Cláudio...
– Salmongô.
– Julio...
– Eu ainda espero um pouco mais. Pode servir os outros.
Juiz de Fora. 1979. O Diretório Central dos Estudantes estava blindado. Ninguém entrava, ninguém saía. Os estudantes amotinados lá dentro. O exército cercando o prédio cá fora. Num apartamento ali perto, quando o relógio da sala soou treze horas, Dona Olga saiu atrás do filho que tardava em voltar para casa. Quando Dona Olga subia a Getúlio Vargas brava, o mundo saía da frente. Foi o que fizeram os dois soldados que guardavam o portão de ferro do DCE, abriram caminho e ela entrou feito uma bala de fuzil. Lá dentro, numa das salas, seu filho Zeca ouvia atento o companheiro Jader, que tinha a palavra, bradar que “para combater os erros históricos da burguesia, que se refletem nas ações do proletariado e atrasa todo o processo contra-revolucionário é preciso...” O experiente orador respirou e a pausa deixou bocas abertas de ansiedade. “É preciso...” Neste momento o Dona Olga entrou na sala e, de tanto rompante, a revolução se perdeu. “José Carlos, desde quando você deixa seu pai, sua mãe e seu irmão à mesa esperando para almoçar? Você acha que só porque entrou para a faculdade pode desprezar as regras da sua casa e a boa educação que eu lhe dei? Levante-se, vamos para casa agora.” “Mamãe... Este não é o momento... a senhora não vê que...” A sala inteira observava quieta o drama familiar instalado. Dona Olga não se intimidou, olhou para todos, um por um, e, um por um, os olhares espantados caíram para o chão. “Eu não vou te levar a força, vou?” “Tudo bem, Zeca, vai lá”, ouviu-se. Zeca voltou os olhos para a mãe. “Vamos logo. Hoje eu fiz bife à milanesa.” Toda a sala voltou os olhos para a mãe e, fora o pessoal da Libelu, todo mundo desejou acompanhá-la até à mesa da sua casa. Mas só saíram a altiva dona Olga e o vexado Zeca. “Ainda por cima, sentado no chão com esta calça branca...” Passaram pelos guardas e ganharam a rua. “Que vergonha mãe.” “Vergonha de quê?” “Me tirar de lá assim.” “Vergonha seria se eu lhe tirasse de lá como havia planejado, pela orelha. Um filho comunista... Era o que me faltava.” Sem mais conversa, a família Soares almoçou unida mais uma vez, enquanto no DCE os amotinados famintos sonhavam com bife à milanesa.
– Olha, Zu, desde o início da nossa relação, eu deixei essa história muito clara. Quando eu falei que fumava você se assustou, pediu um tempo para pensar, pensou e pronto. Aceitou. Para mim, desde este dia, isso é um problema a menos na sua vida.
– Na sua vida.
– Na sua, pois é você quem se incomoda.
– Me incomodo sim.
– Além do mais, você não pode mudar as regras do jogo...
– Que jogo?
– Uai, o nosso...
– Jogo, Eduardo? Você chama a nossa relação de jogo?
– Tá bem, Zuleika, não é um jogo, mas tem regras. Nós temos regras, nós temos um pacto.
– E a Andréa?
– Ai meu deus...
– Onde estava o pacto quando aquela Andréa sentou-se no seu colo? Onde estavam as regras?
– Nós estávamos separados e, assim, as regras estavam temporariamente sem validade.
– Um casuísmo.
– Casuísmo?
– Claro. Desde quando você pode revogar as regras do jogo só para comer a putinha da Andréa?
– Aquilo não significou nada, você sabe.
– Enquanto eu estava em casa, tristinha, meditando, revendo cada momento da nossa relação, em busca de uma solução, enquanto Belo Horizonte inteira via você e a Andréa no deleite.
– Esse assunto era outro que também estava resolvido, Zuleika. Também era um problema a menos para você.
– Que papo é esse de todos os problemas serem meus?
– É porque por tudo o que nos rodeia...
– Não. Pára, pára. Não precisa responder.
– Olha Zu... Eu acho que apesar de todos as enormes e profundas sujeições que nos levam muitas vezes a invocar os mais implausíveis e transcendentes...
– Você me enrola. É por isso que eu não gosto dessa... coisa.
– Esse paletó laranja... Só pode ser o... Juca! Grande Juca! Dá licença... Sempre bem acompan... Que palhaçada é esta?
– Márcio?
– Márcio!
– Eu não acredito. Minha mãe... com o meu melhor amigo!
– Sua mãe?
– Sim, minha mãe. Uma mulher desta idade aos beijos e amassos com o Juca! Ainda por cima com o Juca.
– Espera lá, Márcio. Como assim, “ainda por cima o Juca”?
– E como assim “uma mulher desta idade”?
– Você me proibiu de andar com o Juca, lembra? Porque era mau elemento, que me levava para o mau caminho, não sei o que lá e agora está aí no maior sarro com ele, em plena praça de alimentação do shopping mais movimentado da cidade. Como você me explica isso, mamãe?
– Márcio, não grite.
– Olha, Márcio, eu não sabia que ela…
– Pilantra.
– Nem ela sabia que eu...
– Cala a boca.
– Calma, Márcio.
– Tinha que ser com o meu melhor amigo, mamãe?
– Márcio, eu sou uma mulher livre.
– Eu também…
– Eu também lhe mato, seu safado.
– Márcio, não.
– Mamãe, não se meta que isso é uma briga para homens.
– Está todo mundo olhando, Márcio.
– E daí. Que me importa? Que sacanagem, mamãe. Que sacanagem.
– Pare de ficar gritando “mamãe, mamãe”.
– Por quê? Está com vergonha, mamãe?
– Muita e você está sendo infantil.
– Eu sou seu amigo, Márcio.
– Traidor. Eu jamais, jamais, comeria a sua mãe.
– Claro que não. Minha mãe não é como a sua, assim... uma... uma... coisa.
– Juca, você é um filho da puta.
– No bom sentido, Márcio. Eu quero dizer que você devia se orgulhar da sua mãe. Ela ainda está muito boa... Em excelente forma.
– Se afastem os dois, por favor.
– Veja as coisas pelo lado bom, cara.
– Que lado bom? Vai querer casar com ela? Vai querer virar meu padrasto, é isso?
– Fala baixo.
– Esse palhaço quer ser meu padrasto! Vai me dar mesada também?
– Não é nada disso, Márcio.
– Ah não? E o que é então?
– A sua mãe não sabia que eu, o seu Juca, era eu, o Juca dela. Entendeu?
– Eu vou acabar com você.
– Márcio, não.
– Êpa.
– O que foi isso?
– Acabou a luz.
– Mamãe?
– Estou aqui.
– Eu não gosto de escuro.
– Eu sei, querido. Mamãe está aqui. Juca, você tem um isqueiro? Juca? Juca?
Recém casados, Mirtes e Olavinho foram à lua de mel em Porto Seguro. Isso em 94, 95, por aí, no auge da lambada. Mirtinha, mente aberta, paz e amor, escorpiana, sempre a fim de novidades, logo se apaixonou pelo balanço sensual e quente daquele ritmo. Decidiu, que tinha que aprender a dançar aquela música para, claro, arrasar na frente das amigas. O problema seria convencer o reservado Olavinho.
– Você vai comigo, não vai, Olavinho?
Na noite seguinte, ela o arrastou para a pista. Enfiou-se entre as pernas dele e puxou o desajeitado marido para o som de “Dançando lambada”. Ao ver tão grande atrapalhamento, um bailarino nativo pediu licença a Olavinho e, depois de uns passinhos básicos, saiu levando a moça pelo salão. E ela nem se saiu mal. Mirtinha sempre levou jeito.
– A–do–rei! Olavinho. É como se a gente estivesse dançando no ar. Você não sente o chão. Se deixa ir. Voa. Você tem que aprender também, “Dançando lambada. Pá pá pá pá rauê. Dançando lambada. Pá pá pá pá rauá”.
E saiu rodando pela suíte da pousada. Pá pá pá pá rauê. Pá pá pá pá rauá.
– Aonde vamos jantar hoje?
– Um, dois, três, quatro... Pá pá pá pá rauê.
– Meu bem?
– Cinco, seis, sete, oito... Pá pá pá pá rauá.
– Mirtes!
– Oi?
– Aonde vamos jantar hoje?
– Hoje? Eu marquei com o Edi de voltar ao bar.
– Edi?
– O Edicley. O professor de lambada. Ele vai me ensinar mais alguns passos.
– Outra vez, meu bem?
– Ô amor. O Edi é o melhor dançarino da cidade, da Bahia, talvez do mundo, e não está me cobrando nada, olha que gentil. Eu vou chegar em São Paulo em pleno agosto, bronzeadésima e, pá pá pá pá rauê, pá pá pá pá rauá. Eu vou arrasar, Olavinho! E você vai se orgulhar da sua Mirtinha.
– Ta bem, meu amor, pode ir.
– Você não quer vir também?
– Nós só temos mais três dias de lua de mel e amanhã vamos cedinho para Trancoso, lembra-se?
– Pode deixar que eu estarei prontinha às sete. Beijo.
***
– Meu amor, saia logo do banheiro, estamos atrasados. O nosso vôo é as onze e já são quase dez. O táxi já está aí. Vamos...
– Olavinho.
– Por que você está com essa cara? Por que você está chorando?
– Eu não vou com você.
– Hã?
– Não vou voltar para São Paulo.
– Como não vai?
– Vou ficar aqui.
– Ficar em Porto Seguro? Você?
– Vou ficar e vou morar aqui...
– Morando aonde? Fazendo o quê? Você não conhece ninguém.
– Olha, Olavo... Entre eu e o Edi surgiu uma coisa forte. Nova. Além da dança.
– Meu amor, nós acabamos de nos casar. Temos uma casa nova a nossa espera. Os presentes de casamento para abrir. As fotos para revelar.
***
– Onde está a sua esposa?
– Não é mais minha esposa, mamãe.
– Você nunca teve jeito para mulher, até um biscate como aquela Mirtes te passou para trás.
– Não fale mal da Mirtinha, mamãe. E por favor tire esta música.
– É a moda agora. Pá pá pá pá rauê... Pá pá pá pá rauá. Você não gosta de lambada? O que foi? O que eu falei? Pare de chorar, Olavo Augusto.
Quem disse que vida de bactéria é ruim? Pois saibam vocês que eu sou uma bactéria e sou feliz. Mas para chegar a esta abundante felicidade passei por muitas dificuldades. A vida era dura, eu nasci e vivia isolado do mundo numa gota de mijo na borda da privada do banheiro do Luizão. Numa micro poça quase seca de mijo velho. Eu e alguns milhões de parentes. Era uma vida de sacrifícios, pouca comida e na gota, que secava rapidamente, já mal cabia todo mundo. Já começávamos a comer uns aos outros e isso não é bom numa família. Contudo, nossa sorte começou a mudar quando, certa noite e finalmente, o Luizão chegou em casa bêbado. “Oba, vai ter que mijar”. E veio. Para esperança nossa, veio logo ao banheiro mijar. Porém, quando tirou o pau pra fora, em vez dos respingos que nos salvaria, seu jato nos acertou em cheio e nos lançou, eu, irmãs, primos, cunhados, avós, a família toda, para dentro do vaso sanitário. Achei, confesso, que tudo estava perdido, no entanto, depois do turbilhão, estávamos nadando e bebendo da urina amarela do Luizão. Havia chegado a época da fartura, saímos de uma gota pequena e quase seca para aquele mar de mijo quentinho. Que logo começamos a decompor. Decompõe daqui, decompõe dali... Nunca vi meu povo tão feliz. E era só o início pois, logo, o Luizão voltou ao banheiro, enfiou a sua grande cara redonda no rebordo da sanita e vomitou em cima de nós. Vomitou, vomitou, vomitou até olhar nos meus olhos e me ver. Depois cuspiu e voltou babando para a cama. Não gostei de bílis, mas tudo o mais que o Luizão deixou ali era gastronomia de primeira. “Presunto! Isso é presunto!”, gritava minha experiente irmã mais velha. A vida não poderia ser melhor que aquilo. A grande festa da decomposição. Porém, no meio da refestelança o Luizão voltou e novamente nos surpreendeu. Desta vez, sentou a bunda na privada e descarregou sobre nós borbotões da mais pura merda. Merda mole. Merda preta. Algumas das minhas velhas tias emocionadas sucumbiam de gozo e logo as decompúnhamos também, numa espécie de banquete sem fim. Ficamos horas naquela patuscada, até que, na madrugada, o Luizão retornou ao banheiro para traçar definitivamente nosso destino. Parecia ser apenas mais um xixi. Ele olhou profundamente para dentro do vaso como se quisesse estar aqui conosco, mas, em vez disso, apertou a descarga e todo o mundo rodou. Por instantes, confesso, achei que tinha terminado a nossa boa vida. Mas, depois de uma rápida e alucinante viagem pelos esgotos da cidade, eis que a luz do sol da manhã brilhou e a vida nos sorriu novamente logo que chegamos ao paraíso: o Rio Tietê! Deus existe ou não existe?
– Se você diz... Mas, esse gato não tinha dado um tempo?
– É verdade, eu achei até que ele tinha virado churrasquinho.
– Ai que horror, Maria Célia. Você, com esse seu jeito místico, eu achei que você gostasse de gato.
– Eu gosto. Eu até tenho uma gata que eu amo, que me ama e que se chama Petrusa.
– Petrusa? Isso não é nome de gata de bruxa.
– Gata de Bruxa?
– Sim.
– Se a Petrusa é uma gata de bruxa, eu sou a bruxa.
– Não é?
– Quem disse isso?
– A Betânia.
– A Betânia disse que eu sou bruxa?
– Disse e diz. Mas não vai dizer que eu falei. É que eu achei que você soubesse.
– Eu sabia.
– E nem vai fazer nada contra ela, tá?
– Como assim?
– Nenhum feitiço, sei lá...
– Você acredita em feitiçarias?
– Eu acredito em tudo, minha filha.
– Sei. Que signo você é?
– Áries. E você?
– Virgem.
– Virgem? Ai que inveja.
– Por quê?
– Sei lá... Eu acho as virginianas tão... marcantes.
– Você me acha marcante?
– Apesar desse seu jeitinho ingênuo e dessas batinhas que você usa, eu acho. Marcante, misteriosa e...
– E...
– Bonitinha.
– Bonitinha?
– Sim. Você é uma bruxa bonitinha.
– Não existe bruxa “bonitinha”.
– Não?
– Não. Ou você é linda e fatal, como a madrasta da Branca de Neve é. Ou é horrorosa e fatal, como a madrasta da Branca de Neve pode ser.
– Ah é?
– É. A Bruxa da Bruma, a Malévola, a Cliodna, a bruxa Zelda, a bruxa má do oeste, a Mortícia Adams,as bruxas de Avalon, a Morgana, as bruxas de Salém ou a Madame Min, nenhuma delas é “bonitinha”!
– Mas você é.
– Eu tenho aqui uma tatuagem que não é nada bonitinha, você quer ver?
– Vixe, o chefe voltou, eu tenho que ir.
– Ei, espere...
– Tchau, bonitinha. Eu gosto de você, viu?
– Volte aqui, eu não sou “bonitinha”. Eu sou bruxa. E muito má...
Saímos atrás de um baseado. Era final da tarde de verão. O Filho e eu. Sete e meia, por aí, fomos no carro dele, um velho Fiat 147 amarelo. Não conhecíamos ninguém na cidade, portanto precisávamos de alguém no submundo, na ilicitude. Fomos às putas.
Na esquina de uma rua aparentemente fabril aproximamos o carro de duas mulheres e um travesti, atrás da tal ilicitude. Elas faziam o seu horário de sempre, de puta do interior, sete horas da noite na rua, mas aquele o horário de verão tornava tudo mais irreal. As fábricas de sapato, ali do bairro, já não trabalhavam desde às cinco, seis horas e, agora, eram elas quem operavam o espaço. Com pinturas e roupas estranhas à luz do sol. À primeira abordagem elas desconversaram, mas, conversa veio, conversa foi, a gente era gente boa, o travesti assumiu:
– Quanto você quer?
– Sei lá... Uns dez reais.
– E o que eu ganho?
– Dez reais também.
– Topo.
– Toma.
– Em quinze minutos eu volto.
– Combinado.
Ele saiu e sumiu contra o sol que caía.
– Burro.
– Por quê?
– Por que você deu o dinheiro antes?
– Paga um vinho pra mim, meu bem?
– Quanto é o vinho?
– Burro, burro.
– Um real.
– Quer também?
– Quero.
– Quinze minutos.
– Está rindo de quê?
– Vamos dar uma volta. Daqui a quinze minutos a gente volta.
– Nós vamos estar aqui.
Saímos com o carro pelo bairro que cheirava a borracha e quinze minutos depois paramos de volta à esquina e às duas mulheres.
– Oi.
– Oi.
– E aí, ele já voltou?
– Ainda não, gato.
– Bom, vamos esperar um pouco.
– Aceita vinho?
– É doce?
– Claro.
– Não, obrigado.
– Pena que está quente, mas como a gente é alcoólatra mesmo... Esse é docinho, desce melhor.
– Não é fácil encarar essa vida de cara limpa.
– Vocês não são daqui.
– Não. Não somos. E vocês são?
– De onde vocês são?
– São Paulo.
– Conheço muito bem São Paulo.
O sol se abaixava à nossa frente. O Filho acentuava minha agonia olhando irritantemente para o relógio. E nada do cara voltar.
– Meia hora.
– Quer?
Provei do vinho quente e doce. “Por que eu dei a grana toda pra ele?”
– Por que você deu a grana toda pra ele, mano?
– Sei lá. Confiei nele e quis demonstrar isso.
As duas solidarizaram-se comigo.
– Você é gente fina. Se meteu com uma bandida.
– Deixa com a gente, gato. Ou ela volta com o que é seu, ou nesta esquina ela não fica mais. Eu não quero saber de gente assim aqui no ponto. Qualquer dia vai estar roubando a gente.
– É verdade.
– Isso não se faz. Isso não se faz.
– Aquelazinha nunca me enganou...
– Aquilo só engana bêbado.
– Ou doente.
– Bandida.
– Piranha.
– Calma, meninas, vamos esperar mais um pouco antes de crucificar o... a... Como ela se chama?
– Me paga mais um copo de vinho, gato?
– Sueli.
– Sueli?
– O meu ex é traficante e costuma ter alguma coisa para vender. Só que é lá no Aeroporto.
– Eu nem sabia que esta cidade tinha aeroporto.
– Não tem.
– Não?
– Ia ter.
– Ia?
– É.
– Pare de olhar as horas, Filho!
– Oito e meia.
– E ainda tem sol.
– Meu rímel está borrado?
– É melhor a gente ir embora.
– Não quer ir ali num quarto comigo, gato?
– Hoje não. Toma aqui para mais um vinho, eu vou embora.
– Gostou do vinho?
– Gostei de vocês. Obrigado pela solidariedade.
– Cachorra.
– Pilantra.
– Traíra.
– Ei, ei, olha! Olha quem vem lá...
– Eu não vejo nada com esse sol.
– É ela!
– É ela?
Era. A Sueli, em contra-sol. A silhueta esguia, a mini saia colada, o passo firme e sensual em nossa direção.
– Eu conheço essa menina. Ela não ia furar. Eu sabia.
– Ela não ia trair a gente.
– Claro que não.
– Demorou, heim?
– Conseguiu?
– Ai, gente, deixa eu respirar.
– Então, conseguiu?
– Cadê?
– Fala logo, filha.
– Calma, gente. Assim não dá.
– Como assim não dá?
– Tenho que ir ali no matinho. Vamos comigo?
– Ali no matinho?
– Tira aqui mesmo.
– Não dá.
– Entra aqui no carro.
– Está muito apertado. Não dá. Vamos comigo.
– Eu não, vai lá você, Filho.
– Eu não.
– Vamos, amiga. Eu vou com você.
Saíram. A Sueli e aquela que, cinco minutos atrás, a chamou de traíra. Ficamos, eu, o Filho e a outra, que a chamou de cachorra. Olhei para ela. Ela deu de ombros. Bicou o vinho. Me ofereceu. Eu bebi. Passei para o Filho. As duas voltaram do matinho.
– E aí, cadê?
A mulher esticou o braço com a mão fechada...
– Eu não sei se você vai querer.
...E abriu a mão. Um pacotinho de plástico sujo de merda, que provavelmente embrulhava o meu baseado, estava no meio da palma da mulher que não tinha nojo algum. Ela começou a abrir com cuidado. E eu comecei a ter ânsia de vômito.
– Estava...
Meu gesto perguntou a ela:
– Lá dentro?
O Filho vomitou.
– Não se preocupe. Eu abro com cuidado, não vai sujar nada.
Enquanto abria o pacote, ela se desculpava pela Sueli, que assistia tudo com a unha no dente. Eu não acreditava.
– Eu não acredito.
– Bau bau, meu bem. Não tem como devolver. E os meus dez eu já gastei.
A puta, abriu o plástico, por dentro havia um embrulhinho de jornal. Ela o abriu o embrulhinho de jornal com cuidado...
– Abra a mão.
... E despejou apenas o conteúdo na minha mão. Todos os vestígios ficaram com ela. O Filho limpou a boca com as costas da mão, entramos no carro. Eu ainda vi, antes de sair correndo do bairro fabril, pelo retrovisor, a puta abraçada à Sueli que, mais alta, deitava a cabeça sobre a dela.
– Doutor da sinuca, do carteado, mestre das tretas, professor de falcatruas e tramóias. Rei do nhem-nhem-nhem.
– Rei do nhem-nhem-nhem?
– Babalaô da tapeação. Este “doutor” Jackson é o maior trambiqueiro da paróquia.
– Ele me pareceu tão simpático.
– Eles sempre são.
– Jura?
– É só um aviso. Mas se você quiser pagar para ver o problema é seu... Porém tome muito cuidado porque as apostas dele são sempre altas e deixam prejuízos incalculáveis. Tá vendo aquela ali?
– A grávida?
– Sim. Mais uma iludida.
– Tô fora.
– Mas como? Não vai esperá-lo? O que eu digo a ele?
– Você diz que eu me joguei da janela. Rei do nhem-nhem-nhem...
– Vai pela sombra...
– Marilda, você por aqui?
– Oi, meu bem.
– Cadê a Fátima?
– Que Fátima?
– A moça que estava sentada aqui.
– Se jogou da janela. Vai lá salvá-la?
– Por que eu iria?
– Estava todo cheio de graça para o lado dela.
– Eu? Imagina.
– Não seja cínico, Jackson.
– Eu estava prestando um favor. Ela estava fazendo uma consulta informal, digamos assim.
– O que ela tinha?
– Acho que é stress.
– Você é ortopedista, seu cara de pau, o que entende de stress?
Isso já faz tempo. Lá em Ubá. O Rogério M. tinha um AC na carteira. Um ácido lisérgico. Um LSD. Coisa muito rara naquela Minas Gerais dos anos setenta, que ele trouxe de uma temporada adolescente nos Estados Unidos. Um intercâmbio do Rotary Club, há uns anos atrás. Nessa época jovem, anos atrás significava um, ou dois, no máximo. Tempo mais que suficiente para criar-se um mito. E o AC do Rogério M. transformou-se num mito. Ele abria a carteira e lá estava, num pequeno plástico transparente, um micro pontinho preto. Mostrava para nós a sua inacessível droga e dizia, num inglês inquestionável: “Lysergic Diethylamide”. E todo mundo: “Oh”. Esta espécie de veneração durou anos, um ou dois, e, durante este tempo, aquele ácido lhe conferiu um prestígio que todos os jovens candidatos a malucos, como eu, cultuavam.
Numa noite, no balcão de um bar lotado, estavam o Rogério M. e o Júlio Júnior, o Jota Jota, frente a frente. Os dois cara a cara. Com todo mundo de Ubá no bar. De repente, por uma aposta, talvez, o Rogério M. tirou a pequena preciosidade da proteção transparente, colocou-a na ponta do dedo e encarou o Jota Jota. O Rogério com a língua de fora e o AC na ponta do dedo. Ia finalmente tomar o ácido! Que cena inesquecível. O bar parou para ver. Ubá parou para ver. A galera de malucos, como eu, nem piscava. De repente, ou esta história não teria razão de ser, o AC sumiu. Caiu, ali na frente do balcão, do bar lotado, Ubá inteiro ali. Caiu todo mundo no chão. O bar inteiro de quatro a procura da droga pequeníssima.
Isso já faz tempo. Mas até hoje muita gente diz que achou o tal AC. O pior é que tem uns que estão malucos até hoje. Como eu.
Como todas as manhãs, assim que o galo canta, o matuto João se aconchega na mulher, a mulher se aconchega nele, suspiram e se amam. João acorda cedo e gosta. Depois de tomar o café na cozinha quentinha, sem pressa, beija a mulher na boca e sai para o trabalho no campo. Lá fora o recebem o sol, a passarinhada em algaravio, ipês, craviúnas, borboletas, capim, tudo verde e azul e um avião branquinho passando lá no alto céu. É melhor ver o avião passar lá no alto do céu do que estar dentro dele, pensa ele naquela manhã brilhante, entre o mato, cheiro verde, flor amarela, passarinho. Tudo em abundância e calma.
Finalmente o avião do Paulo voa sobre a terra. Sentado numa poltrona da aeronave abarrotada, ele relembra a dificuldade que foi chegar até ali. Acordar cedo sempre era um castigo e desta vez foi antes que cedo. O despertador tocou às cinco horas, a esposa nem acordou, virou-se sonolenta para o canto enquanto ele tateava com o pé o chão escuro do quarto em busca do chinelo. Achou. Depois barba, banho, trânsito, fila, barulho, check-in, café forte, mais fila, cinto de segurança, espera, barulho, decolagem, tédio. Tudo às pressas. Para riscar o céu azul do João.
A volta
Novamente o avião do Paulo voa sobre a terra. E novamente ele relembra a chegada até ali. O despertador tocou às cinco da manhã, mas ele já estava acordado temendo perder a volta. A amante dormia de costas e ele tateou com o pé o lençol em busca de partes dela. Achou. Depois barba, banho, táxi, chuva. O dia deveria clarear, mas na hora certa ficou pior que a noite. Pareciam todos cegos. Uma meleca. Um caos. E as pessoas em seus carros e ônibus tentando se mover por ali. E mais chuva, mais trovão, mais trânsito, fila, barulho, check-in, café forte, mais fila, cinto de segurança, espera, barulho, decolagem, instabilidade, turbulência. Medo. Agora ele está ali. Agarrado à pasta preta. A pasta preta agarrada a ele. Mas, assim que o avião vence o cobertor de nuvens, o céu aparece azul, o sol brilhando. O medo se vai e Paulo sente vontade de ficar ali.
Lá embaixo, na roça, um forte trovão estremece a casinha atijolada de João e Maria. Ela agarra-se a ele e ele agarra-se a ela. Suspiros. Ais. Amores. Trovões. Se o galo cantou ninguém ouviu. Não vale a pena levantar com esta chuvada. Ficam rindo na cama. Lá fora a água alimenta a vida. No céu nem passarinho, nem avião.